Mauricio Figueiredo

Educação, recursos humanos e o melhor do et cetera

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

O dia em que peguei fogo no O DIA



Estava na faixa dos 18 anos. Em família pobre minha idade já era avançada para o primeiro emprego. Muita gente começava muito antes com 13 ou 14 e até mesmo alguns contavam histórias de aos 4 anos já estar capinando na lavoura ou vendendo, como hoje, bala nos sinais de rua ou ajudando o tráfico na segurança dos morros.
Meu tio Jorge tinha arrumado uma vaga de caixa na padaria do Leblon, mas me aconselhou chegar bem cedo e lavar o chão para cair no agrado dos patrões. Claro que no primeiro dia fiquei dormindo até o meio-dia, pois não tinha vocação para auxiliar de padaria.
Um pouco mais tarde, então, foi então que meu pai, que tinha trabalhado na Rádio Clube do Brasil, a primeira emissora do Rio ou talvez do Brasil, com transmissões diretas de concertos musicais e óperas do Municipal me levou em direção ao O Dia, pois era amigo de um diretor chamado Oton Paulino, grande na hierarquia do dono Chagas Freitas.
Antes já tinha passado, nas imediações da Central do Brasil pela Gazeta de Notícias, em um velho prédio que parecia nos levar à própria época do Império, não fosse a Gazeta o primeiro jornal impresso no Brasil em 10 de setembro de 1808. Lá tomamos um café - eu não - meu pai Lourival e o Bogéa, dono do impresso que anotou meu nome e endereço e ficou de ver o que conseguiria. Como eu tinha cara de bobo e de malandro não pintou nada.
Na Rádio Mauá, ele também era amigo do Orlando Batista que disse ser melhor esperar eu servir o Exército para ver depois se me encaixava. Eu era ouvinte da turma do Bate Papo, mas não ouvia a Mauá nas transmissões esportivas pois Orlando era torcedor do Vasco e eu sou Flamengo e ouvia o Valdir Amaral.
No O Dia fiquei sabendo o quanto pesa uma boa amizade. Meu pai foi abraçado pelo Oton Paulino que, imediatamente, ligou para o diretor de Redação, Tassilo Mitke, dizendo que estava mandando um garoto jovem repórter para ser aproveitado.
Entrei na Redação do O Dia com cara de bobo e sob olhares desconfiados geral. Mas fui otimamente tratado. Zé Grande e outros repórteres de Polícia me recomendaram para comprar um terno tão logo recebesse o primeiro pagamento. Naquela época os repórteres de Polícia vestiam-se todos de terno, acho que para não serem confundidos com a bandidagem.
Tentavam me dar trote de todo o jeito, como ir buscar a calandra na Oficina do jornal, mas eu não caía em nenhum, pois de fato já trabalhava como repórter no Escolar do Jornal dos Sports. De manhã, o chefe era o Werneck que também trabalhava no O Globo.
Mas depois acabei transferido para o horário da noite e as tentativas de trote aumentaram.
Um belo dia, quando atendo o telefone, recebo a notícia de que um violento incêndio estava ocorrendo em um prédio da Rua do Riachuelo. No bloco de anotação anotei o número e corri rápido para a mesa do Chefe de Reportagem, passando a informação. Então ele me perguntou o endereço. Quando informei o número da Riachuelo, então falou bem alto: "trata de correr garoto pois esse número é o do nosso prédio". A Redação em peso caiu na gargalhada.

(Mauricio Figueiredo)

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