Mauricio Figueiredo

Educação, recursos humanos e o melhor do et cetera

sábado, 9 de julho de 2011

Cabral: "Eu hoje vou mudar minha conduta"

Ano passado foi o ano do centenário de nascimento de Noel Rosa. O governador Sérgio Cabral, cujo pai é jornalista e crítico musical, certamente, como milhares e milhares de sua geração, cresceram embalados pela música e versos de Noel, na voz de Araci de Almeida ou qualquer outra musa que colocava o poeta da Vila em seu repertório. Por isso, em sua mente deve ter ficado os versos "Hoje eu vou mudar minha conduta. Eu vou pra luta, pra poder me modificar".

Mudar a conduta, querer se modificar é sempre um gesto louvável. Mas no caso do governador Cabral essa modificação, talvez, venha em hora tardia. Como ele mesmo reconheceu houve excesso de sua parte no episódio com os bombeiros, quando classificou os rebelados como vândalos. Há quem ache ter ele perdido dividendos políticos, enquanto outros afirmam que o "povão" não está muito ligado para esses melindres e não há nada que uma boa obra de efeito visual não volte a melhorar a imagem do governador.

O grande fato é que nessa mudança de conduta, as coisas ficam meio difíceis, quando surge a grave denúncia de que Cabral tenha beneficiado o dono da Delta Construções, Fernando Cavendish, recordista em obras públicas no estado, através de contratos. Na rádio CBN (29 de junho), o governador declarou que nãot omou "qualquer decisão que envolva dinheiro público por conta de amizades pessoais", mas propôs a adoção de um código de conduta para ele próprio cumprir, assinalando que "quero assumir o compromisso de rever minha conduta".

A questão a ser melhor explicada, no entanto, é o fato de o governo estadual já ter, nos últimos quatro anos, concedido benefícios fiscais que somam 50 bilhões de reais, enquanto o estado alega dificuldades para melhorar os salários dos servidores públicos, entre os quais, médicos, professores e profissionais da área de segurança, como os bombeiros, que após um movimento reivindicatório que culminou com a própria invasão do quartel central da corporação acabaram conseguindo a antecipação das parcelas referentes aos meses de agosto a dezembro do reajuste salarial de 5,58%, junto com os policiais e agentes penitenciários, sem, no entanto, conseguirem a aprovação da emenda que propunha um piso salaria maior. Na mesma situação estão os professores que emplacam greve de mais de dois meses.

Só a Delta do "amigo" Cavendish obteve desde 2007, contratos no estado que chegam a 1 bilhão de reais, sendo que 58,7 milhões conseguidos no primeiro semestre deste ano com dispensa de licitação. O empresário Eike Batista, por sua vez (outra amizade de Cabral), recebeu 75 milhões de reais em incentivos fiscais para as suas empresas, desde o início da gestão de Cabral, em 2007. O deputado Marcelo Freixo (Psol) dencuncia que Eike doou 750 mil reais para a campanha de Cabral, ou seja, 1 do que deixou de pagar em impostos.

Nem a ex-mulher de Cabral, Adriana Ancelmo escapou das relações consideradas estranhas no âmbito do governo do Estado do Rio. O escritório de advocacia Coelho, Ancelmo & Dourado, do qual a ex-primeira-dama, é sócia-proprietária, conseguiu para quatro clientes (Metrô, Supervia, Telemar e Facility) benefícios fiscais de 1 bilhão.

Por outro lado, os professores aposentados, com direito ao pagamento de R$ 5 mil, determinado pela Justiça, receberam proposta do Rioprevidência para assinarem, quase que obrigatoriamente, a renúncia ao dinheiro a que tem direito, aceitando o recebimento de R$ 1.600 para quitação definitiva da dívida. Na base do pegar ou largar, os velhinhos que já foram a bandeira eleitoral de Cabral terão de aceitar o "estranho acordo" ou quem sabe amargarem mais 14 anos a espera de uma nova decisão judicial.

É, pelo visto, o governador precisa ouvir muito Noel Rosa.

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